sábado, 10 de dezembro de 2011

Os rémoras

...Sujeitos incómodos, dizia o homem, sujeitos tão outros do que afirmam, tão à procura de alcançarem o contrário do que proclamam. Egoístas e superficiais, falam do seu profundo espontâneo amor ao próximo. Rasteiros e sem rasgo, cantam de si próprios elevados ideais. Incapazes e argutos, segredam, modestos, as realizações fecundas das suas actividades. Videirinhos sem perdão, ferozes, videirinhos, afirmam o seu desinteresse pelo dinheiro, pelas posições e honra, a sua largueza de sentimentos, o seu inato pendor para a camaradagem. E assim singram pelos caminhos mais fáceis, assim alcançam os melhores sítios, os mais amenos e proveitosos sítios. E de todos se servem, com astúcia, blandiciosos, falas mansas, palmadinhas nas costas.
Há-os por toda a parte, em todas as profissões, artes e ofícios, dizia o homem - são os rémoras.
E o homem, que tinha nascido à beira do mar, falou-nos do rémora. O agarrador, o pegador, como lhe chamam os pescadores, disse-nos o homem. E também lhe chamam o peixe-piolho. Malpronto de corpo, de cor acastanhada, sombria, saracoteante, grotesco e impotente de movimentos, incapaz de nadar para qualquer parte, vive em completa dependência dos outros peixes, a que se agarra com a ventosa que tem no lugar da cabeça. Só deste modo, levado pelos outros, consegue chegar onde abundam os pequenos peixes de que se alimenta, ou os restos das vítimas dos grandes peixes.
Classificam-no os entendidos como exemplo acabado de "comensalismo". Um malacopterígio, ensina o dicionário. E também lá diz, no dicionário: obstáculos, entraves, empecilhos, trambolhos, comodistas, exploradores - os rémoras.

Manuel da Fonseca, O vagabundo na cidade

sábado, 26 de novembro de 2011

Gratidão?!


Ainda estou de queixo caído com esta frase que li num artigo do Público de hoje, não basta as universidades cobrarem o que cobram de propinas, taxas, emolumentos e afins...
Gratidão?! e os que se formam e não têm emprego vão receber "gratidão" de quem?

quarta-feira, 16 de novembro de 2011



No coração da mina mais secreta,
No interior do fruto mais distante,
Na vibração da nota mais discreta,
No búzio mais convolto e ressoante,

Na camada mais densa da pintura,
Na veia que no corpo mais nos sonde,
Na palavra que diga mais brandura,
Na raiz que mais desce, mais esconde,

No silêncio mais fundo desta pausa,
Em que a vida se fez perenidade,
Procuro a tua mão, decifro a causa
De querer e não crer, final, intimidade.

Parabéns José Saramago!

Ai Portugal, Portugal


E volta a euforia do costume, Portugal ganhou, Cristiano marcou, o euro está à nossa espera, só notícias boas para animar o tuga que só se lamenta da crise e da vidinha. Amanhã são só bons títulos nos jornais, só se fala de Portugal e sem ser por causa da Troika, amanhã nada disso interessa, depois voltamos à realidade.
Num outro acordar as capas dos jornais voltam a ter a palavra de ordem, crise, crise e mais crise, medidas, planos e tudo e mais alguma coisa que nos tire ainda mais do bolso aquilo que já não temos.
"Fado, Fátima e Futebol" cada vez mais perto de ser o lema deste cantinho à beira mar plantado, (sempre achei esta expressão "parvinha" mas hoje apeteceu-me :)


quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Rita


 E é mesmo menina, uma menina linda que nasceu hoje e se chama Rita! É linda, mais uma boneca que se junta à família, que nos faz crescer e recordar tudo o que já passámos juntos, os momentos de alegria e os de tristeza, as partidas que a vida nos prega, mas acima de tudo saber que a amizade está sempre lá.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

No País dos Sacanas


Que adianta dizer-se que é um país de sacanas?
Todos os são, mesmo os melhores, às suas horas,
e todos estão contentes de se saberem sacanas.
Não há mesmo melhor do que uma sacanice
para poder funcionar fraternalmente
a humidade de próstata ou das glandulas lacrimais,
para além das rivalidades, invejas e mesquinharias

Dizer-se que é de heróis e santos o país,
a ver se se convencem e puxam para cima as calças?
Para quê, se toda a gente sabe que só asnos,
ingénuos e sacaneados é que foram disso?

Não, o melhor seria aguentar, fazendo que se ignora.
Mas claro que logo todos pensam que isto é o cúmulo da sacanice,
porque no país dos sacanas, ninguém pode entender
que a nobreza, a dignidade, a independência, a
justiça, a bondade, etc., etc., sejam
outra coisa que não patifaria de sacanas refinados
a um ponto que os mais não são capazes de atingir.

No país dos sacanas, ser sacana e meio?
Não, que toda a gente já é pelo menos dois.
Como ser-se então nesse país?
Não ser-se?
Ser ou não ser, eis a questão, dir-se-ia.
Mas isso foi no teatro, e o gajo morreu na mesma.



Jorge Cândido de Sena (Lisboa, 2 de Novembro de 1919 — Santa Barbara, Califórnia, 4 de Junho de 1978) foi poeta, crítico, ensaísta, ficcionista, dramaturgo, tradutor e professor universitário português.